quinta-feira, 17 de maio de 2012

Preconceito: Medo de relacionamento? Medo de descobrir o igual no diferente?


No dia 10 deste mês de maio participei de um evento do Instituto Elas na Casa do Saber. Foi um café da manhã com mulheres inspiradoras, falando sobre a aventura de ser mulher na vida. 
Um importante ponto comum nos discursos foi o preconceito, falou-se de situações em que se foi vítima dos pré-julgamentos. 

Eu sou branca, tenho olhos claros, sou considerada bonita e nunca tive direito de expressar minha indignação contra o preconceito que sofro por ser assim. É como se o pré-julgamento das bonitas terminasse sentenciando suas vítimas a nunca poderem sofrer pela imagem preconceituosa que lhes foi imposta; já que é bonita mesmo, o que mais podem querer?

No evento do Fundo Elas eu me senti representada e aliviada por ganhar o direito de protestar junto com todas as outras mulheres ali presentes. Pude dizer publicamente o quanto me indigna sempre ser vista como privilegiada, o quanto fere a invalidação das minhas conquistas, o quanto a desqualificação das minhas potências é injusta.

Sei que cada pessoa traz em si as marcas destes rótulos acumulados ao longo da vida. Infelizmente, enquanto pessoas, estamos todos sujeitos ao preconceito. Ele se manifesta das mais variadas formas e reside em todos nós. Julgar é uma característica humana geral.
Porque é tão necessário rotular? 
De onde vem esta vontade de enquadrar as pessoas em estereótipos e atribuir-lhe papéis logo de cara? 
Torna-se mais seguro encaixotar o outro e determinar seu comportamento e crenças a partir de preconceitos, do que se relacionar verdadeiramente. É o perigo da troca que apavora.
Imagina conhecer o outro humano em sua forma real? Pode ser perigoso, podemos ficar vulneráveis, podemos criar afeto! Quanta responsabilidade! Que medo de cativar e ter que ser responsável pelo outro! Que pavor das relações.
Como ser prático e imediato e ao mesmo tempo aprofundar o contato com o outro?

Infelizmente estamos tão hábeis nesta prática de rotular que a leitura primária que se faz de um alguém a quem se está sendo apresentado funciona como um rápido diagnóstico: 
      Passo 1 - detectar que tipo de pessoa é aquela. 
      Passo 2 - acessar na memória as impressões sobre este padrão.
      Passo 3 - comportar-se taticamente como quem já teve acesso ao manual daquele tipo de
                     gente.

O medo do relacionamento é tamanho que "pré- conceituar" é uma ferramenta de defesa imediata.
O raciocínio inconsciente é: quanto mais pessoas inadequadas existirem, menor número de relacionamento preciso ter, logo estou menos vulnerável. 

Pela minha forma de enxergar o universo, percebo uma única maneira de dar início à transformação: o autoconhecimento.
Transformar este mundo de preconceitos só será possível quando encontrarmos dentro de nós mesmos o que nos faz repelir a outra pessoa.
Nós precisamos descobrir do que temos tanto medo! 
Quando estivermos inteiros e aprendermos a nos enxergar, poderemos descobrir o outro como de fato se apresenta, sem precisar enquadrá-lo em qualquer padrão pré-conceituado. Afinal de contas não pode ser a primeira impressão a que fica!

Camila Leal
Camila Leal é assistente de Nádia Rebouças desde dezembro de 2011. Está aprendendo a transformar através da Comunicação e Metodologias da Rebouças&Associados.

ELAS

Elas.
Segundo a nossa língua, é o pronome que substitui as meninas, mulheres e senhoras para nos referirmos a elas quando falando com outras pessoas ou quando elas não estão. Falando assim soa feio, quase que menosprezando, mas Elas é um pronome bem maior que isso e é incognitamente plural. Para mim a sua pluralidade é a essência de tudo aquilo que ELAS são.

O Fundo de Investimento Social ELAS já foi um dia o Fundo Ângela Borba e mudou sua cara e seu nome estrategicamente para melhor traduzir o seu valor e o seu trabalho. No encontro que o Elas promoveu na Casa do Saber, no último dia 10 de maio,  eu ouvi pela primeira vez a história da transição da marca pela boca de uma das ELAS. Para um profissional de comunicação essa história pode parecer igual a muitas outras historias de sucesso de rebranding, mas para mim como mulher que veio antes da educação, da formação e da profissão, me revelou significados formidáveis para ideias que me acompanham desde que nasci.

ELAS são mulheres investindo em mulheres, partilhando recursos e oportunidades e transformando as suas vidas e de muitas outras. O Fundo funciona como uma corrente em que cada elo é parte do outro formando uma interação de fato, feito o resultado: a mulher recebe em suas mãos uma oportunidade que a transforma. Como ser extraordinário que ela é, vai provocar transformação sua família, sua comunidade. É um mecanismo com pouca ciência, mas que provoca resultados concretos, palpáveis, mesuráveis e extraordinariamente positivos. O investimento social em mulheres é o único que tem obtido resultados assim no mundo inteiro.

O Fundo ELAS descobriu isso cedo!  Vale a pena investir em mulheres!  Mas o mundo está descobrindo as mulheres aos poucos, em passo lento. Hoje temos mulheres poderosas que ultrapassaram as mais difíceis provações para chegarem onde estão, na presidência de países e empresas, no cerne das decisões globais, na posição perfeita para influenciar e deixar sua marca. Mas será que essas mulheres estão investindo em outras mulheres?

Wangari Maathai foi uma ativista ambiental kenyana que nos anos 70 fundou o Green Belt Movement. Ela foi a primeira mulher do Kenya a se doutorar e escolheu a Biologia como seu campo de estudo. Ela entendeu cedo na sua vida que a Terra está viva e que o desmatamento, o cultivo excessivo de plantações estrangeiras ao seu país havia provocado alterações profundas na sua terra e na sua comunidade - a falta de árvores havia diminuído a quantidade de lenha que as mulheres usavam para cozinhar refeições e esquentar suas casas; e as encostas e bosques outrora luxuriantes haviam se tornado extensões de terra morta, instável, sem as antigas raízes que outrora as suportavam, sujeitas a deslizamentos e desabamentos e colocando a vida de milhares de pessoas em risco.
Maathai apelou aos governos, às autarquias e aos homens que tomavam decisões para a solução evidente - plantar árvores. Ninguém a escutou, exceto as mulheres.
Assim nasceu o Green Belt Movement, uma iniciativa de mulheres plantadoras que mudou os solos do Kenya, reverteu o déficite de mata daquela região da África e transformou a vida de milhares de mulheres do Kenya.

Essa história eu li num livro biográfico e foi suficiente para mexer com o meu pensamento, mas melhor ainda é ouvir algo assim inspirador directamente da boca da protagonista. As histórias partilhadas no encontro do ELAS na Casa do Saber tiveram para mim o mesmo impacto mobilizador. Como a história de Elza, uma das Bordadeiras da Coroa, que junto com outras mulheres e com o apoio do Fundo ELAS transformou totalmente a sua existência. Elza, como muitas mulheres espalhadas pelo mundo, estava imobilizada pela sua condição social e pelas circunstâncias aparentemente irreversíveis da vida como o lugar onde morava ou a educação que recebera. Com a ajuda do ELAS, Elza e suas colegas bordadeiras desenvolveram seu atelier, geraram renda para todas, melhoraram a condição de vida delas e das suas famílias e colocaram no mapa a comunidade do Morro da Coroa. Em Outubro de 2009 um vestido bordado pela cooperativa foi leiloado por 163 mil reais, (quem comprou foi o empresário Eike Batista), mas isso é quase insignificante face ao que essas mulheres alcançaram. Hoje elas são donas de suas vidas, são auto-suficientes, viajam para o exterior e fazem cursos de línguas. Tudo isso porque alguém acreditou nelas e lhes estendeu uma mão.

Wangari Maathai foi reconhecida com vários prêmios, inclusive foi a primeira mulher africana a receber um Nobel da Paz em 2004. Mas quantas mulheres no mundo sabem do seu trabalho? Quantas mulheres em África aprenderam com o exemplo? E quantas mulheres recebem a ajuda ou são ao menos consideradas por desconhecidos?
A resposta é simples, muito poucas.

O que Wangari Maathai e as ELAS têm em comum, é o mesmo que têm com a maior parte das mulheres do mundo - uma capacidade inata de se unir, trabalhar e produzir resultados positivos, ao mesmo tempo em que cuidando da sua família, da sua comunidade e (um pouco menos) de si própria.

Ouvir as histórias d' ELAS me fez lembrar das minhas e de todas as outras espalhadas pelo mundo. Fez-me lembrar que vale a pena acreditar em nós mulheres e me abriu os olhos para as infinitas possibilidades que nascem quando se dá uma pequena oportunidade a uma pequena mulher. Você também dê uma chance às mulheres, para que elas cresçam, se tornem grandes e mudem o caminho difícil em que a Humanidade colocou o nosso Mundo.

Rosa Silva

Rosa Silva é estagiária da Rebouças e veio completar seu mestrado de Portugal,  na área de RSA.  Esse é seu testemunho ao encontro Elas na Casa do Saber. Ela ficará no Brasil até julho e pretende voltar à sua terra Angola onde sente que tem um importante trabalho para realizar. A R&A tem contato e compromisso com Angola desde 1995.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Evento aponta oportunidades para promoção da igualdade de gênero


Evento aponta oportunidades para promoção da igualdade de gênero

Com o objetivo de detectar oportunidades para a promoção da igualdade de gênero, cerca de 200 pessoas se reuniram durante a atividade paralela do 7º Congresso GIFE, “Construindo novas pontes: O Feminino, as questões de gênero e o investimento social privado”, que ocorreu no dia 27 de março. Agora, o Instituto Avon, Childhood Brasil, Fersol, Fundação Ford, Fundação Orsa, Fundo Elas, Instituto Lojas Renner e Instituto Walmart, que se uniram para promover o encontro, lançam a sistematização do debate que contou com lideranças nacionais e internacionais.
NA PARTE DA TARDE EU FACILITEI A CONVERSA COM O GRUPO BUSCANDO DEFINIR CAMINHOS FUTUROS PARA O INVESTIMENTO EM QUESTÕES DE GÊNERO E O RESULTADO FOI SURPREENDENTE. DIRETAMENTE DO NEWS LETTER DO GIFE.

Entre as sugestões propostas figuram o apoio a projetos focados na educação de meninos e na inclusão dos homens como agentes de transformação sociocultural. “O homem não é o inimigo da igualdade de gênero, mas fruto de um caldo de cultura calcado em clichês sobre o feminino e o masculino no qual todos nós estamos navegando”, afirmou Carlos Zuma, do Instituto Noos. Zuma participou da mesa Gênero e a Dimensão Masculina, uma das sete mesas temáticas em torno das quais se reuniram os participantes no período da tarde.


Ideias e oportunidades
Olga Corch, do Instituto Avon, abriu os trabalhos do período da tarde. Os participantes se reuniram em sete mesas para discutir e apresentar sugestões para o avanço da questão de gênero no país. Abaixo, algumas das conclusões do encontro:

• JOVEM – É preciso atrair o jovem para o trabalho de reflexão e ação sobre o tema e investir no protagonismo juvenil. Trocar o ‘legislar pelo jovem’ pelo ‘legislar COM ele’ e usar linguagens e meios de comunicação com os quais o jovem se identifique.

• RECONHECIMENTO – Criação de um selo de certificação a ser concedido a empresas que promovam a igualdade de gênero e os direitos humanos. A sociedade fiscaliza e contribui, dando visibilidade às empresas certificadas e não consumindo produtos e serviços das empresas sem selo.

• DESENVOLVIMENTO FEMININO – As empresas devem capacitar as mulheres como agentes impulsionadoras do desenvolvimento sustentável e usar sua capilaridade na multiplicação da mensagem do consumo sustentável. A cadeia de valor deve ser envolvida nesse esforço pela sustentabilidade e pelo desenvolvimento econômico da mulher.

• ESFORÇO COLETIVO – As empresas, tal como o Estado e o conjunto da sociedade, devem se mobilizar para resolver a principal equação impeditiva da igualdade de gênero: a mulher ainda acaba sendo a principal responsável pelo cuidado com os filhos, com a casa, com os enfermos. Só quando os homens também compartilharem essas tarefas, as mesmas condições estarão disponíveis para que homens e mulheres convivam nos mesmos espaços de poder.

• REFERÊNCIAS – Criação de um banco de dados com indicadores sobre os bons retornos do investimento em mulheres. Uma forma de prover as mulheres de autonomia financeira é capacitá-las a formatar projetos que as tornem empreendedoras, fornecendo a elas assessoria em todas as fases de formalização da nova empresa.

Todas essas reflexões serão encaminhadas ao grupo de organizações que promoveram o painel. A riqueza do que foi discutido no encontro passará a permear, a partir de agora, as discussões dos investidores sociais privados. A idéia é ampliar o leque de critérios disponíveis para a escolha de projetos a serem privilegiados com recursos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Lúcidas reflexões. Vale a pena ler e passar algum tempinho longe do celular... Exercício para mente...

O papa e o marxismo

Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
Adital
O papa Bento XVI tem razão: o marxismo não é mais útil. Sim, o marxismo conforme muitos na Igreja Católica o entendem: uma ideologia ateísta, que justificou os crimes de Stalin e as barbaridades da revolução cultural chinesa. Aceitar que o marxismo conforme a ótica de Ratzinger é o mesmo marxismo conforme a ótica de Marx seria como identificar catolicismo com Inquisição. Poder-se-ia dizer hoje: o catolicismo não é mais útil. Porque já não se justifica enviar mulheres tidas como bruxas à fogueira nem torturar suspeitos de heresia. Ora, felizmente o catolicismo não pode ser identificado com a Inquisição, nem com a pedofilia de padres e bispos.
Do mesmo modo, o marxismo não se confunde com os marxistas que o utilizaram para disseminar o medo, o terror, e sufocar a liberdade religiosa. Há que voltar a Marx para saber o que é marxismo; assim como há que retornar aos Evangelhos e a Jesus para saber o que é cristianismo, e a Francisco de Assis para saber o que é catolicismo.
Ao longo da história, em nome das mais belas palavras foram cometidos os mais horrendos crimes. Em nome da democracia, os EUA se apoderaram de Porto Rico e da base cubana de Guantánamo. Em nome do progresso, países da Europa Ocidental colonizaram povos africanos e deixaram ali um rastro de miséria. Em nome da liberdade, a rainha Vitória, do Reino Unido, promoveu na China a devastadora Guerra do Ópio. Em nome da paz, a Casa Branca cometeu o mais ousado e genocida ato terrorista de toda a história: as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki. Em nome da liberdade, os EUA implantaram, em quase toda a América Latina, ditaduras sanguinárias ao longo de três décadas (1960-1980).
O marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se compreender a atual crise do capitalismo. O capitalismo, sim, já não é útil, pois promoveu a mais acentuada desigualdade social entre a população do mundo; apoderou-se de riquezas naturais de outros povos; desenvolveu sua face imperialista e monopolista; centrou o equilíbrio do mundo em arsenais nucleares; e disseminou a ideologia neoliberal, que reduz o ser humano a mero consumista submisso aos encantos da mercadoria.
Hoje, o capitalismo é hegemônico no mundo. E de 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecem fome crônica. O capitalismo fracassou para 2/3 da humanidade que não têm acesso a uma vida digna. Onde o cristianismo e o marxismo falam em solidariedade, o capitalismo introduziu a competição; onde falam em cooperação, ele introduziu a concorrência; onde falam em respeito à soberania dos povos, ele introduziu a globocolonização.
A religião não é um método de análise da realidade. O marxismo não é uma religião. A luz que a fé projeta sobre a realidade é, queira ou não o Vaticano, sempre mediatizada por uma ideologia. A ideologia neoliberal, que identifica capitalismo e democracia, hoje impera na consciência de muitos cristãos e os impede de perceber que o capitalismo é intrinsecamente perverso. A Igreja Católica, muitas vezes, é conivente com o capitalismo porque este a cobre de privilégios e lhe franqueia uma liberdade que é negada, pela pobreza, a milhões de seres humanos.
Ora, já está provado que o capitalismo não assegura um futuro digno para a humanidade. Bento XVI o admitiu ao afirmar que devemos buscar novos modelos. O marxismo, ao analisar as contradições e insuficiências do capitalismo, nos abre uma porta de esperança a uma sociedade que os católicos, na celebração eucarística, caracterizam como o mundo em que todos haverão de "partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano". A isso Marx chamou de socialismo.
O arcebispo católico de Munique, Reinhard Marx lançou, em 2011, um livro intitulado O Capital – um legado a favor da humanidade. A capa contém as mesmas cores e fontes gráficas da primeira edição de O Capital, de Karl Marx, publicada em Hamburgo, em 1867."Marx não está morto e é preciso levá-lo a sério", disse o prelado por ocasião do lançamento da obra. "Há que se confrontar com a obra de Karl Marx, que nos ajuda a entender as teorias da acumulação capitalista e o mercantilismo. Isso não significa deixar-se atrair pelas aberrações e atrocidades cometidas em seu nome no século 20".
O autor do novo O Capital, nomeado cardeal por Bento XVI em novembro de 2010, qualifica de "sociais-éticos" os princípios defendidos em seu livro, critica o capitalismo neoliberal, qualifica a especulação de "selvagem" e "pecado", e advoga que a economia precisa ser redesenhada segundo normas éticas de uma nova ordem econômica e política."As regras do jogo devem ter qualidade ética. Nesse sentido, a doutrina social da Igreja é crítica frente ao capitalismo", afirma o arcebispo.
O livro se inicia com uma carta de Reinhard Marx a Karl Marx, a quem chama de "querido homônimo", falecido em 1883. Roga-lhe reconhecer agora seu equívoco quanto à inexistência de Deus. O que sugere, nas entrelinhas, que o autor do Manifesto Comunista se encontra entre os que, do outro lado da vida, desfrutam da visão beatífica de Deus.
[Escritor, autor do romance Um homem chamado Jesus (Rocco), entre outros livros -