sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O estímulo fantástico ao fim da visão da cerca, do muro

Só consigo escrever emocionada. Nunca confessei isso antes, mas é assim. Passei os últimos quatro meses dentro da campanha TicTacTicTac, que pretende de alguma forma unir todas as vozes que gritam para repensar tudo, especialmente, a nossa visão de cercas, muros.

Dentro da própria campanha, o desafio foi ultrapassar a visão de muro. Quem dividiu a Terra em cercas e inventou milhões de regras e sistemas “democráticos”, tentando organizar a conversa entre os muros? Fomos nós. Criamos a linguagem que nos separara dos gestos e do olhar. De alguma forma, passamos a acreditar que éramos diferentes uns dos outros, que cada pedaço do território era independente de um sistema maior.
Construímos culturas focadas em pequenos recantos, sem conseguir perceber o todo.

Como falaria Robert Wilson, ficamos com a escolha da refeição e não enxergamos o menu. Ou ainda de forma mais significativa, ficamos com o mapa e não conseguimos ver ou sentir o território. Perdemos a visão da menina Terra e que ali dentro dela todos nós teríamos, sempre, nosso destino.

A COP 15 é um choque porque, pela primeira vez, alguns atores do comando dos territórios percebem o mapa global. Percebem que é uma bobagem pensar nas partes, mas descobrir, de repente, que estamos tratando do “nós comum”. Estamos todos dentro do mesmo desastre anunciado. TicTacTicTac. O tempo voa e não estamos nos dando conta, com a rapidez necessária, da importância da atitude de cada um de nós, mesmo que Copenhague esteja tão longe.

Neste momento que escrevo, Obama está em trânsito para Copenhague. Aqui não são os outros - burocratas, técnicos, políticos - que podem ter uma atitude final que inove na civilização, mas são “eles”, os que dirigem esse nosso planeta Terra neste exato momento. Nunca antes na história da civilização, um momento como este aconteceu. Eles, os “donos do mundo”, lá dentro conosco. Nós todos - ativistas, cientistas, cidadãos comuns, profissionais de meio ambiente, ONGs, empresas (existem algumas) - aqui fora, estarrecidos com as notícias e os fatos que nos fazem temer pela capacidade dessa sofrida casa que habitamos resistir aos absurdos. Trata-se de fazer escolhas, de perceber e acessar formas de viver, que acreditamos e executamos no nosso dia-a-dia, mês a mês, ano a ano. TicTacTicTac.

O tamanho da transformação exigida de nós é muito maior do que a COP 15 ou do que a decisão “deles”. Mas a decisão deles tem também um papel fundamental para nos ajudar - profissionais de Comunicação, ativistas, sonhadores - a conseguir alavancas para seguir. Temos que mudar atitudes, criar novas tecnologias e novas políticas públicas, responsabilizando todos nós, habitantes do planeta Terra. Não existem muros, existe um único território.

Por um acaso, as decisões sairão no dia 18, dia do meu aniversário. Sinto-me privilegiada porque posso pedir um presente: motivos concretos para que eu possa trabalhar mais rápido por um futuro. Tudo é movimento e não acaba agora, só entenderemos onde estamos dessa vez, construindo essa nova civilização. Ela está nascendo, em dor de parto. Poderíamos dizer que o parto é difícil, o bebê está sentado, fora da posição ideal para normalmente replicar a vida. Mas precisamos seguir, não temos outra chance. A escolha é: Qual será o tamanho do avanço hoje?

A COP 15 acaba, mas não a campanha global TicTacTicTac. Ela sai como patrimônio dos empreendedores do novo mundo, multiplica a capacidade em rede, sem fronteiras, com algumas vaidades, mas com uma capacidade de mobilização do tamanho da nossa menina, a Terra.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sua voz em Copenhague

Pessoas ao redor do Planeta se unem à Campanha TicTacTicTac para dizer que “O mundo quer um acordo pra valer”, na Conferência sobre Mudanças Climáticas, realizada pela ONU, em Copenhague, na Dinamarca. O objetivo é enviar mensagens aos participantes da Conferência e contribuir para a redução das emissões dos gases causadores do efeito estufa.
Os organizadores da campanha global sugerem ações que serão apresentadas durante a Conferência, que ocorre até o dia 18 de dezembro, como manifestação dos cidadãos do Planeta Terra: a pintura de mensagens em paredes e vigílias com velas.
Visite o site http://www.tictactictac.org.br e escolha um evento próximo de você.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

COMO AS MULHERES SE SENTEM FRENTE A VIOLÊNCIA NAS CIDADES?

Quando pedimos que as mulheres, em 7 cidades, desenhassem como se sentiam frente a violência no Projeto Mulheres - Diálogos sobre Segurança Pública, que foi realizado pela Secretaria Especial de Pol[iticas para as Mulheres com o apoio da UNIFEM, UNODC e UNFPA, nas cidades de Salvador, Recife e Canoa,s tivemos o símbolo da flor chorando. Uma chora lágrimas de sangue (Canoas), outra em Recife chora lágrimas negras e outra (Salvador) chora palavras de dor. A flor, um símbolo tão associado à mulher por todas as grandes cidades brasileiras, chora. Chora pelos nossos mortos pela violência que se multiplica sem parar. Continuamos acreditando que reprimir é a solução. As mães, avós, irmãs continuam vivendo carregando suas dores. Morrendo de medo que seus filhos cresçam, virem adolescentes e a vida os leve para a morte. Presisamos parar. Elas nos pedem isso. A vida, o respeito a ela, nos pede isso. Seremos capazes de construir uma cultura de paz? No link abaixo você pode ver filme que documentou o estudo.

( http://vids.mayspace.com/index.cfmfuseaction=vids.individual&videoid=62498179)







sábado, 10 de outubro de 2009

Um Sábado

Sempre penso. E hoje é sábado. Lembro da poesia de Vinícius. Por que hoje é sábado eu refilto. Penso que no mundo temos 22 milhões de pessoas passando fome. Tento pensar fora do número. Números não nos tocam. O que me tocam são as vozes, as imagens. Tento pensar que nesse momento, milhões de crianças estão com fome. Milhões de mães estão engolindo suas lágrimas, tentando suplantar e ter esperança na dor. Lembro dos Diálogos, Mulheres e Segurança Pública e me dou conta de que a dor esta aqui ,tão perto de nós...dando concretude à fome. As mulheres que conheci esse ano são heroínas na sua luta pela paz. Alimentam-se de coragem para seguir em frente. Sozinhas, quase sempre, ou com homens de passagem, cuidam desesperadas de seus filhos, muitas vezes sem saber como essa responsabilidade caiu em seus colos. Elas me ensinaram tanto! No meio de uma noite de sábado, com bolor na alma, por causa de muita chuva e umidade nesse outubro no Rio de Janeiro, fico pensando que saída podemos encontrar. Procuro isso por toda minha vida. Muitas mudanças aconteceram. Sou filha da ditadura. Vivi a morte de Vlado, meu cunhado ,como um ato imenso de violência. Assisto essas mudanças aspirando forte, para continuar com esperança. São lentas. Para uma vida, o tempo é pouco e longo ao mesmo tempo. A sensação é de um mergulho profundo, sem ar, e de repente se repensa e o ar retorna. É lento mesmo. É um movimento, um processo que para a civilização tem um tempo bom, mas para cada vida é um tempo que nos exige uma capacidade de paciência que nem sempre está disponível no nosso software. Fica uma exigência: que diminua a miséria humana. Ela inclui a nossa capacidade de conviver com tanta fome, com tanta gente que ainda não vive o nosso século...vivem ainda na idade média. Betinho me ensinou muitas coisas, mas o que sobra de mais fundamental é que compartilho com ele o pensamento: não há futuro para quem não guardar no coração a capacidade de se indginar.
Alguém pode sempre me perguntar, qual é a fonte de energia que me mantem ainda tão jovem na luta, na refexão e na ação, e eu sempre responderei que é o contraditório: a rebeldia e a paciência. Alguém, algum dia, sintetizou meu mapa astral : você é uma hippie ajuizada. Ri muito dessa definição, na época. Mas é isso: minha hippie e minha ajuizada tentam entender essa loucura que nós humanos fizemos com a terra, com os seres vivos, com nossa dignidade, nossos valores. E sigo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

RSE e a Mídia, é possível?

O encontro promovido pelo ETHOS aconteceu no auditório da ESPM Rio e foi muito interessante. Foi uma troca de perguntas entre jornalistas e assessores de imprensa de empresas. Podemos concluir que enfim todos eram jornalistas, apenas escolheram lados diferentes para desenvolver suas trilhas profissionais. E ainda assim a questão principal - é possível uma conversa produtiva? - fazia todo sentido. De um lado André Trigueiro, Amélia Gonzalez e Marcos Sá Correia. Do outro a Natura, a Alcoa e o Banco Itau. Fui correta na nominação, de um lado jornalistas do outro empresas representadas na figura de seus assessores de imprensa. Não houve desconforto e a conversa fluiu com transparência. Vou registrar algumas frases que devem permanecer para mais reflexões:
"No momento que a impresa entender que não existe perfeição não vai mais haver mocinho e bandido."
"Jornal é um ramo de negócio velho, lento, em decomposição. Migrou para a internet sem descobrir a maneira de ganhar dinheiro com isso."
"Sustentabilidade não tem que ser uma especialidade do jornalismo, tem que estar em tudo, é notícia em qualquer área, a qualquer momento. O esporte tem que se preocupar com o ambiental."
"A crise ambiental caminha depressa e a humanidade devagar".
"Ser sustentável não é dizer que agora estou escovando os dentes, mas que estou preocupado em ensinar outras pessoas a escovar os dentes." (essa seria a missão das empresas, e mais especificamente poderia ser um papel relevante para os bancos).
"Falo uma hora para o repórter e não sai uma linha, só o que as ONGs falaram. Preconceito com a fonte empresarial?"
"Os jornalistas conhecem muito pouco o ambiente empresarial." (de fato eles conhecem mais as empresas da Avenida Paulista, como eu chamo)
"Repórter é ignorante, tem o dever profissional de ser ignorante, tem que querer descobrir, quando entende do assunto, passa a ser especilista e vai ser colunista etc."
"Repórter trabalha sob pressão não tem tempo de digerir."
"Jornalistas tem medo de se aproximar de empresas...antes eram brindes incríveis, havia até a brincadeira que na economia contínuo era gorado!"
"A imprensa com a empresa funciona na base da apurrinhação , acaba ajudando a empresa a perceber suas imperfeições."
"O marketing é que complica...Atingiu o foot print...tá errado. Aí um engenheiro da empresa me ligou e disse, olha eu sei que não é isso...O grande desafio da sustentabilidade está nos engenheiros e banqueiros!"
"Natura e Real são exemplos de como ir construindo o caminho. O Real assume para quem empresta dinheiro. Discrimina clientes. Isso faz a diferença. O engenheiro pensa no custo/ benefício, ele pode fazer a conta da execução e manutenção e deixar claro o impacto."
"Os bancos são conservadores, a mudança tem que ser estrutural, não é fácil. "
"Tem que trabalhar o público interno, é uma mudança cultural que envolve mudar processos. "
Cursos na faculdade de comunicação sobre sustentabilidade? Teve o sim e o não. Como é transversal não devia estar em tudo? Mas ainda não está...talvez no momento ainda precise de forte impacto sobre os novos paradigmas."
"Trabalhar a complexidade, a diversidade, dar aos estudantes a dimensão do que está acontecendo hoje , o impacto que causamos com nossas formas de pensar. Sustentabilidade é uma palavra síntese, sinônimo de sobrevivência e equilíbrio. Precisamos disseminar os novos valores através dela."

Conclusão: A conversa não flui entre empresa e imprensa. Quem está do lado da empresa, conhece muito bem a imprensa, passou pela mesma escola que ensina a criticar, investigar, nunca acreditar. Na ponta está o diretor da empresa, quase sempre um engenheiro ou financeiro, ainda pouco convencido que pode dizer que errou, que anida não fez, que ainda não conseguiu preparar sua equipe para fazer, ou simplismente que não entende porque todos agora cobram dele essa tal de sustentabilidade...Afinal ele faz tudo que faz para dar lucro aos acionistas e ser uma empresa sustentável...

Assim caminharemos...limpando conceitos, permitindo falar e ouvir e entender que nada está pronto, tudo está imperfeito, passível de melhorar. Melhoria contínua é uma linguagem que a empresa entende...é isso precisamos melhorar sem parar, com determinação a nossa forma de viver num planeta ameaçado...enquanto há tempo.

Precisamos também "ensinar a escovar o dente"ou seja a viver com novos hábitos no novo tempo da civilização. O que fica claro é que todos nós, que trabalhamos com comunicação, seja no velho jornal, nas novas mídias, na divulgação das empresas, fazendo programas, filmes, propaganda, assessoria de imprensa, precisamos correr contra o tempo para conversar mais e perder menos tempo não nos entendendo, porque...falta pouco tempo para podermos olhar lá na frente e exergar nossa sobrevivência. Que venham mais e mais oportunidades de diálogos entre nós. Que possamos ser mais sinceros.

Os profissionais da Alcoa , Nemércio Nogueira, da Natura Rodolfo Gutilla e do Itau, Sonia Favareto minha solidareidade por estarem desempenhando o importante papel de ponte no mundo da imprensa e de farol para dentro das organizações.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Instituto Bola para Frente



Hoje foi um dia especial. Visitei o Instituto Bola para Frente para fazer a palestra de abertura da Meeting Responsabilidade Social que acontece pelo oitavo ano consecutivo. O tema esse ano foi o desenvolviemtno sustentável. O Instituto convida empresas e organizações para debater, refletir sobre como podemos avançar na construção de uma sociedade mais justa. No ano passado conheci o Instituto e fiquei encantada com o que encontrei. Primeiro conheci Jorginho e sua história. Ele nasceu ali em Guadalupe, a comunidade que nunca abandonou, mesmo depois de ter conquistado o mundo com seu futebol. Ele e Bebeto resolveram seguir o sonho. O projeto procura através do esporte desenvolver a cidadania, o protagonismo, marcando gols na conquista da auto estima de meninos e meninas sem oportunidades e sempre a mercê do tráfico de drogas e da exclusão. Existem muitos projetos semelhantes mas algo se passa ali de muito especial. Hoje acho que entendi. existe no ambiente do Bola para Frente HARMONIA, um ambiente de comprometimento de todos e todas que se vai encontrando. Caso eu tivesse que traduzir o Instituto numa imagem, num desenho, eu certamente criaria um grande sorriso em cima de cima de uma quadra. Foi uma alegria! Os meninos e meninas de todas as idades nos recebendo, a orquestra de instrumentos construídos a partir de material reciclado, o coral com meninas e meninos começando por cerca de 3, 4 anos de idade. A horta no jardim com flores com o patrocínio da Agristar, os investidores sociais misturados a profissionais de outras ONGs, tudo numa organização impecável. A palestra foi feliz, meu coração estava também sorrindo e dividindo o sonho com Jorginho: por que não um espaço como esse em cada comunidade? Por que não trabalhar no local? Deixei meu carinho para todas aquelas crianças e jovens que vi fazendo, vivendo a cidadania e a educação com uma visão global. Lembro no entanto que alguém precisou sonhar para que tudo isso virasse realidade. E claro contar com equipes competentes para fazer a gestão do sonho. Nós temos o hábito de perguntar: como vai você? Como vai a vida? Talvez a gente devesse perguntar: como vão seus sonhos?

Fime da Campanha TicTacTicTac

video

Sua assinatura vale um futuro!

sábado, 12 de setembro de 2009

Plataforma IBASE

Passei sexta e sábado num encontro que acontece a cada 3 anos, Plataforma IBASE. É uma oportunidade extraordinária de encontrar a cidadania ativa do Brasil, de vários países da América Latina e da Europa. O IBASE com sua dimensão internacional, foi um dos realizadores dos Foruns Mundias, consegue atrair para discussões qualificadas antropólogos, sociólogos, economistas, moradores de periferia onde atua, entre muitos outros, para discutir seu futuro como organização nesse complexo mundo atual. Temas como a sustentabilidade das ONGs, seu relacionamento com governos, empresas públicas e privadas, a autonomia, a mudança de foco de investimento das agências internacionais foram temas para muitos diálogos. A organização fundada por Betinho e que tantas constribuições deu ao país, e porque não dizer ao mundo, não tem medo de se olhar e propor a sua refundação. Um novo momento começa agora depois dos 3 dias de imersão com a participação de quase 100 pessoas. Foi relançado também os AMIGOS do IBASE um programa institucional que começa a trabalhar pela conquista da participação da sociedade na manutenção de instituições que estejam a serviço da nova civilização. Podemos construir um novo tempo de manutenção das organizações que trabalham para temas transformadores de nossa sociedade, onde cada um de nós dê força para o estudo, pesquisa ou desenvolvimento de projetos nos temas de nosso interesse. Ou seja, nós podemos ser cidadãos mais ativos. Quem quiser ser AMIGO DO IBASE entre no site, pesquise toda sua história e se precisar de ajuda fale com a gente aqui. Podemos fazer o novo mundo em cada ato nosso e podemos contribuir para organizações que possam multiplicar nossas ações e construir uma relação transparente com cada uma delas. Betinho sentiria muito orgulho dessa plataforma. foi lançado um DVD-Caminhos da Democracia -onde Betinho conta a história do Brasil de 1953 à 1993, produzido pelo Canal Imaginário e Via Forum, com o patrocínio da Petrobras. Você também pode adquirir o DVD enviando pedidos aqui no blog e estará ajudando na sua distribuição para escolas públicas do Rio de Janeiro.

domingo, 23 de agosto de 2009




Imagino que aqueles que me acompanham devem estar meio frustrados pela minha ausência. Vocês não se arrependerão por esperar. Esses últimos tempos foram muito intensos, onde a Rebouças trabalhou intensamente em projetos novos e desafiantes, que me ocuparam intensamente. Realizamos Diálogos em 7 cidades com as mulheres mais diversas que representaram a confecção de 7 relatórios de Registros e mais 7 de Análises. Além disso, construímos um relatório que consolidou a voz de mulheres sobre a violência pública nas 7 cidades. A riqueza do material é imensa e poderei estar divulgando para todos a partir do lançamento pela Ministra Nilcéa Freire na CONSEG, no próximo dia 29 de agosto. As mulheres foram ouvidas, no que já se configura uma nova metodologia da Rebouças, baseada nos Diálogos - Rede de Convivências de David Bohn. Aprendemos muito. Eu e mais 5 pesquisadoras ( Nídia Carvalho, Juliana Duarte, Sandra del Soldato, Ana Amélia Duarte, Luiz Gaulia) pudemos ouvir a histórias incríveis de mulheres protagonistas que venceram violências em suas infâncias, algumas que estão presas por crimes cometidos ou por decisões de não denunciar crimes de companheiros ou filhos. Aprendemos com mulheres que fizeram diferentes opções de gênero, com profissionais de sexo, com grávidas adolescentes, ou bisavós que viveram inúmeros momentos da vida nas cidades. Ricas e pobres. Moradoras das calçadas e prédios e das favelas. Conversamos também com professoras, delegadas, bombeiras, motoristas de ônibus, promotoras públicas, rapper, DJ, pedreiras entre muitas outras profissões que, além de contar suas histórias, fizeram um diagnóstico da violência em suas cidades e sugeriram novos olhares sobre Políticas Públicas para Segurança. Aprendi que David Bonh tem razão quando diz que dialogar pode mudar o mundo. Quase nunca a população é convocada, como protagonistas, para refletir e interferir na dura realidade de nossas vidas. Outros, que pouco conhecem a realidade de fato, pensam e agem por nós. As mulheres vivem a violência das cidades com muita dor e são impedidas de exercer sua essência: a proteção. As realidades em cada cidade são surpreendentes.
Aos poucos vou contar um pouco de tudo isso aqui...depois do dia 29.

A outra notícia é que a Rebouças está ajudando na parte de comunicação, da Campanha Internacional Tic Tac no Brasil, que vai marcar os 100 dias que nos separam da Conferência de Copenhague. Aí está a grande oportunidade de exercermos nossa capacidade de impedir que o fim de nossa civilização vá acontecendo pouco a pouco. Temos inúmeras informações da ciência e precisamos mudar nossa forma de viver. Cada um de nós pode fazer muito somado à compromissos assumidos pelos países, o que poderá acontecer em Copenhague. Leia abaixo o que é a campanha Tic Tac e veja como você poderá ajudar a todos nós. Também teremos várias notícias aqui sobre a campanha nos próximos 100 dias.
Como disse sumi um pouco, mas volto com muitas notícias daqui para frente. Aos que me seguem muita paz.

Acorda! Chegou a hora de salvar nosso futuro, e sua assinatura faz muita diferença.

De 7 a 18 de dezembro de 2009, lideranças de todo o planeta estarão reunidas em Copenhague para firmar acordos mundiais sobre a grave ameaça das mudanças climáticas. É inquestionável que este problema já está em curso, com efeitos dramáticos e potencialmente catastróficos para todos nós.
Ainda é tempo de evitar o pior, mas é preciso agir imediatamente! A transição para uma economia de baixo carbono pode trazer grandes benefícios, mas isso depende de como agirmos agora.
O Brasil tem papel fundamental nessa luta, já que é um líder nas negociações internacionais, mas também um dos maiores emissores mundiais de gases do efeito estufa. Mas sua postura ainda é tímida quando se trata de assumir decisões firmes e ousadas para sanar o problema. Falha também ao não dar o exemplo, colocando em prática no país, todo o discurso que apresenta no exterior.
Por isso nós, abaixo-assinados, reivindicamos que - além de implementar as necessárias políticas nacionais – as autoridades brasileiras assumam JÁ o compromisso de defender ativamente no plano internacional o avanço para um acordo climático global que possa, no mínimo:

Garantir que o aquecimento global ficará bem abaixo dos 2oC em relação à média histórica, estabelecendo metas e mecanismos para que, antes de 2020, comecem a decrescer as emissões globais de gases do efeito-estufa.
Reduzir as emissões dos países desenvolvidos em pelo menos 45% até 2020, frente aos níveis de 1990.
Estabelecer objetivos mensuráveis, verificáveis e reportáveis para redução substancial das emissões de países em desenvolvimento emergentes e em rápido crescimento econômico, viabilizados por medidas apropriadas a cada país.

Apresentar medidas concretas de mecanismos e compromissos de aportes financeiros, para apoiar países em desenvolvimento na estabilização e posterior redução de emissões, e na sua adaptação às mudanças climáticas.

Aprovar a criação de soluções e mecanismos de REDD (Reduções de Emissões Associadas ao Desmatamento e à Degradação Florestal), justos e aplicáveis a curto prazo.

Promover a sustentabilidade e dignidade do desenvolvimento humano e a integridade dos processos ecológicos, mediante a transformação da economia e o fortalecimento da democracia.


quarta-feira, 1 de julho de 2009

“Comunicação e sustentabilidade, o que uma coisa tem a ver com a outra?” é o título da minha palestra no III Fórum ABA Rio de Responsabilidade Socioambiental que acontece no dia 7 de julho, no Rio de Janeiro.

A resposta para ela está na base da metodologia que temos aplicado na R&A com clientes como mineradoras, indústrias químicas, cimenteiras ou mesmo ONGs e institutos de educação: o diálogo com públicos de interesse.

A instabilidade e a incerteza fazem parte do cenário atual. E é através da conversa bem posicionada e franca,que podemos construir relações verdadeiras, que nos ajudem, nos fortaleçam e nos capacitem a lidar com as infindáveis transformações do mundo moderno.

Sabemos que nosso conversar é determinado por medo, ansiedade e vergonha. Em nossa cultura, não são muito freqüentes as oportunidades de falar com liberdade e sinceridade. Essa situação poderá mudar de modo significativo quando conseguirmos transformar nossas conversas em trocas de intenções, em vez de continuar a fazer delas meios de ocultá-las.

Esse certamente é o maior desafio para as lideranças das organizações na atualidade. É preciso construir uma ética do dialogar, dar feedbacks e abrir portas para nos transformarmos e transformarmos o mundo. Sustentabilidade portanto, nessa cadeia de relações e conexões, necessita de comunicação, diálogo e abertura ao outro.

E você o que acha?

Consumidor?

Há cerca de uns 5 anos atrás eu estava preparando uma apresentação para um encontro do ETHOS, em São Paulo. O tema era “Balanço Social”. Era o começo do longo caminho para abandonar o tal do marketing social, que publicava books do Balanço Social, que se transformavam na peça mais importante para as empresas demonstrarem sua responsabilidade social. Minha preocupação era construir uma apresentação que demonstrasse que o Balanço Social não era uma “peça de marketing”, mas uma ferramenta que iria ajudar cada empresa a perceber como podia planejar suas conquistas para uma visão sustentável, tendo o balanço como instrumento de gestão mais consciente e responsável. De repente me deu um insight: “O que estaria no dicionário sobre a palavra consumidor?”. Eu, que durante anos na minha vida de publicitária, tinha repetido, escrito, propagado a palavra: CONSUMIDOR! Abri o dicionário e tive uma enorme surpresa! Consumir: gastar, extinguir, iludir, enganar, esgotar, destruir.

Fiquei perplexa por perceber que era tudo o que fizemos nos últimos tempos. Gastamos e extinguimos uma natureza exuberante que ganhamos de presente, desperdiçamos e jogamos fora nosso futuro, desperdiçamos milhões de vidas humanas no planeta, além dos animais. Consumimos. Sem parar. Inventamos desejos que nos enganam o tempo todo na ilusão da felicidade. Despertamos necessidades de consumo em milhões de pessoas, inclusive crianças e adolescentes, que não tem como atendê-los. Enchemos nossas cidades de violência. Pior que isso, chegamos a acreditar que estamos aqui para isso: consumir. Nossos adolescentes cortam os cabelos, desenhando a marca Nike nas cabeças, sem saber nem o que é, mas sabendo que é uma marca. E as marcas viraram valores, que muitas vezes justificam matar na esquina pelo tênis da moda. Fomos aprendendo gradativamente a valorizar as “coisas” e consumimos nossas vidas e esperanças num círculo insistente de violências.

Voltei para a apresentação e criei uma página onde coloco a palavra “consumir” e, em círculos, todos os significados que estavam no dicionário. Todas as vezes que mostrei essa apresentação pude perceber o efeito da mensagem. A seguir, sempre propunha a ressignificação do conceito consumidor: O INTERLOCUTOR.

A nova empresa, aquela que eu e muitos esperamos, vem descobrindo que deve matar o velho conceito de consumidor e começar a enxergar seus interlocutores.
E o que quer dizer interlocutor? O dicionário me respondeu mais uma vez: agregar, trocar, interagir, prover.

Foi um prazer ver que na última Conferência do ETHOS vários palestrantes decretaram o fim do consumidor. Não conseguiremos construir os novos tempos pensando igual e falando igual. A empresa que não descobrir que tem interlocutores, que entramos na era do diálogo, não terá um futuro promissor. Da mesma maneira, a velhíssima forma de pensar a comunicação no modelo emissor - receptor não faz hoje qualquer sentido. A comunicação circula, conversa, troca. A conversa gira em círculos, não mata, não aliena. Cria harmonia e respeito pela diferença. A tecnologia vem nos libertando do papel passivo de consumidores. Somos público, sim, mas de relacionamento. Quer conversar? Prepare-se para me ouvir. Eu estou podendo estabelecer limites e decidir como quero viver.

Por isso morreu também nesse ano, no ETHOS, o tal do público-alvo. É completamente natural que eu queira dar um tiro para transformar uma pessoa em consumidor. Um consumidor é sempre inconseqüente e inconsciente, por isso o tiro certeiro estudado até à exaustão pelas pesquisas de mercado. Inúmeros focus group foram realizados para descobrir como falar para que o alvo se torne público e deixe de existir como ser, virando consumidor.

Bem-vindos os interlocutores! Aqueles que lêem rótulos, notícias, escolhem origem e ingredientes, decidem o tempo de TV e o que seus filhos devem “consumir”. Conseguem, antes de pegar o cartão de crédito, pensar. Bem vindo o cidadão consciente, o prospect de interlocutor, que se nega ser um gastador, destruidor de tudo, especialmente de sua identidade.

Mudarão os planos de marketing. Será vergonhoso falar em público-alvo, assim como as empresas já estão mais cuidadosas ao falar em “comunidades do entorno”, porque começam a perceber que nessa simples definição estão esquecendo que a comunidade está ali, há tanto tempo, são a alma daquele território, eles é que estão chegando, como visita e precisam se apresentar como futuros vizinhos e pedir licença para entrar.

A forma como falamos ou escrevemos carrega significados. Só vamos construir uma nova civilização nos transformando, aprendendo e construindo os novos caminhos. E... rápido! Esse parece ser o recado que temos recebido.

Marketeiros e publicitários, os tempos ficarão mais desafiadores a partir dessa Conferência ETHOS 2009. Trabalhemos todos e todas para a conferência de 2010, que promete possibilidades de grandes novos avanços.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

GAP, sonho e esperança

Ontem o primeiro curso desenvolvido pela nova diretoria do GAP - Grupo de planejamento e atendimento do Rio de Janeiro - começou com a presença de 150 profissionais do mercado. O que sempre acreditei, estava ali confirmado: o mercado publicitário do Rio de Janeiro está vivo e cheio de vontade de estudar e se transformar. Meu velho sonho de grupo, de profissionais reunidos na busca de novas perspectivas estava ali vivo. A esperança fica por conta da descoberta do enorme potencial da comunicação e da capacidade que temos nessa cidade de reinventar. Vivi um mercado no Rio que durante anos optou por ficar no papel de vitima. Eram inúmeras reuniões para reclamações, desabafos, choradeira por um mercado que mudava para São Paulo, por clientes pouco profissionais, pelas pequenas verbas, universidades pouco voltadas para o mercado, suas necessidades e mais mil. Assisto agora a um grupo de jovens profissionais de planejamento e atendimento, liderados por Luciana Vasconi, que passam por cima das vítimas e saem como protagonistas de novos tempos para a comunicação no Rio de Janeiro. Não ficaram presos as dificuldades, mas saíram procurando o como não fazer tudo igual o tempo todo. Produziram entusiasmo e seriedade. Uma receita de sucesso que foi assistir no primeiro curso de Comunicação Digital, tema mais votado na pesquisa realizada com profissionais e empresários da propaganda. Assim nasce o grupo que criará uma regularidade na troca, no diálogo, no aprendizado, na discussão dos novos tempos para a comunicação. O GAP RJ em breve estará também atraindo os profissionais das áreas corporativas dos clientes que são planejamento e atendimento quando tem o desafio de levar a comunicação para seu devido lugar: estratégia para as empresas que terão que ter uma marca para o futuro. É possível fazer diferente. Só a gente faz diferente. Acesse o site http://www.gaprj.com.br/ e se informe sobre os novos cursos. Vem muito mais por aí. Entre no novo espírito do mercado. Vamos trabalhar com a comunicação que vai criar a transformação dos mercados e fazer do Rio de Janeiro a cidade da sustentabilidade, papel que lhe está reservado.

quinta-feira, 26 de março de 2009

OBAMA e a Educação

Atenção, isso por lá, imagine nosso desafio...

"Só estou aqui por causa da educação que eu recebi. Eu não venho de família rica. Muitos dos nossos não estão recebendo a educação necessária, e isso acontece porque as escolas estão defasadas, não há professores suficientes, material defasado. Outro problema é a forma como as escolas e as aulas estão desenhadas. É preciso dinheiro e também reforma. Não é só colocar mais dinheiro, é preciso uma reforma.Vamos investir em educação infantil. Focar no professor, pagar mais, dar apoio, mais treinamento, atualizações e vamos trabalhar com os professores para determinar as melhores maneiras de dar a melhor educação aos nossos alunos."

Educação

Fiquei muito bem impressionada com um debate na Globo News que reuniu Cristovam Buarque, Mozart Neves Ramos, do movimento Todos pela Educação, e uma especialista da USP que não consegui pegar o nome. Nós sabemos todos os problemas, existem idéias ultra interessantes. O que falta? Um planejamento sistêmico de ações que envolvam todos os públicos importantes para que realmente se ponha o país numa estrada de conquista de outro nível de maturidade e consciência na busca de melhor qualidade de educação. Por que esse país não acredita em comunicação planejada envolvendo os atores sociais para fazer transfromações? Fico rouca de explicar que é preciso uma nova forma de fazer as coisas. Se fazemos tudo igual, como conseguir resultados diferentes? Olhar o problema pelas partes geram soluções fragmentadas. É importante atuar sobre o professor, os alunos, as famílias, as universidades, os políticos e será a soma de ações em sinergia que poderá nos salvar e, claro, pensando a longo prazo, precisamos de, no mínimo, uma década de perseverança num plano orquestrado e que comprometa a nação. Isso só se faz com comunicação. Comunicação que eduque, desperte, seduza, motive. Precisamos também de líderes comprometidos. O Cristovam está certíssimo quando diz: "O Lula precisa falar com pais, professores e alunos". Mas quando?

sábado, 14 de março de 2009

Mulheres

Criaram o Dia da Mulher porque era necessário. Virou , na prática o mês da mulher. Um dia todos os dias serão dias da mulher. Dias da vida. Para nossa reflexões um pouco de como as mulheres foram nosso tema de reflexão em 2008. Texto maravilhoso de uma economista mulher e só por isso poderia escrever esse texto. Bem vinda as mulheres, mas também todos os homens que sabem que podemos juntos construir um mundo novo. Precisamos. Cada dia é mais urgente.
MULHERES.

R&A e seu aprendizado sobre o universo feminino.

A R&A sempre homenageou as mulheres em março. Afinal, nossa alma é feminina. Após 2008 é impossível que eu e as consultoras da Rebouças não falemos ainda mais da mulher. Conversamos através de nossa metodologia Offplan com muitas e diferentes mulheres. Conversamos com elas sobre aborto, sobre seus desafios como “chefes de família”, sobre suas enormes perdas e dores frente à violência doméstica. Sobre a tristeza de ver seus companheiros e filhos se perderem nas drogas, seja o álcool, as drogas naturais e as sintéticas.
Entrevistamos mulheres do campo e da floresta onde sua voz fica totalmente abafada por falta de qualquer apoio, já que lá não existe ainda nem as delegacias de mulheres.
Conversamos nesses anos com operários que até muito poucos anos não tinham banheiro exclusivos. Não tinham ainda uniformes operacionais femininos, faltavam pregas e ajustes, e mesmo assim elas usavam batom.
Me dei conta que vivi em ilhas, onde como mulher já podia ter e ser. Não é assim na maior parte de nosso país e no mundo.
Claro que também aprendemos sobre a mulher executiva que se perde no papel, sendo um homem disfarçado de terninho e na profunda confusão com sua sexualidade.
O grande desafio é ser dona de nossas vidas, que acabou sendo o tema da Campanha contra a Violência das Mulheres do Campo e da Floresta. Conhecemos também as donas de si e diretoras do seu caminho que foram incentivadas e capacitadas pelo Fundo Elas de Investimento Social. Mulheres da periferia que com suas mãos, vontade e criatividade construíram um artesanato com personalidade.Vivemos o lançamento do Fundo Elas quando Elisa Lucinda, Heloísa Buarque de Holanda, Eliane Brum, entre outras mulheres muito especiais puderam conversar sobre nossos desafios que estão aí nas notícias da mídia todos os dias.
Todas nós da R&A descobrimos em 2008 a dor do aborto (um problema de saúde pública), da perda, do estupro do padrasto, do pai. A dor do medo, do desrespeito, da pobreza, da falta de educação e a transformação de tudo em ação, sobrevivência, autodidatismo, coragem, alegria, emoção, enfim, em vida.
Do corpo que sangra mensalmente às lágrimas que derrubam pelos homens que amam, somos iguais em classe social, religião, nível educacional, profissional, ou seja, qual for nossa diferença.
Somos mulheres. Temos um plug muito forte com a mãe terra. Somos mães, irmãs, mulheres que nesse tempo de falta de valor e significados, estamos construindo conexões com novos tempos no mundo todo.
O vazio do consumo sem nexo, do culto a celebridade, dos mitos das belezas, estão ai para matar nossa liberdade e impedir nossas escolhas com o coração.
O Dia da Mulher é homenagem da conquista da nossa liberdade. Precisamos agora dar qualidade as nossas escolhas, impedir que as jovens se percam na capacidade infinita que nosso sistema tem de matar o que tem valor na nossa vida em sociedade, as nossas meninas e a menina terra. E esse mês da mulher tem um símbolo, a menina de Recife. Ela está aí para mostrar que fizemos muito e ainda nada fizemos. No seu silêncio em anos de abuso está a matéria prima para nossas ações, nós mulheres que muito temos a fazer.



TEXTO (Do Blog de MIRIAM LEITÃO)


Anoitece no dia da Mulher e este silêncio do blog não é falta do que dizer.É tristeza. O caso da menina de Recife foi devastador. Não, ninguém ignoraquantas meninas são vitimas da violência em suas próprias casas. Os algozessão os pais, padrastos, pessoas que deveriam estar ensinando e protegendo. Os números são muitos, os casos que aparecem na imprensa são frequentes. Masa menina de Pernambuco doeu mais.Talvez por ter apenas nove anos, por estar sendo estuprada desde os seis,ou porque a chantagem do padrasto era que mataria a mãe. Ou talvez porqueela é bem pequena, menor do que deveria ser para a sua idade. Amenina passou anos vendo a irmã também abusada. Só a mãe das duas nada via. O que acontece que cega as mães?A menina de Recife lembra o quanto a luta da mulher será longa. Recentementea Sharia, um código tribal brutalmente contra a mulher, foi restabelecidaem todo o Paquistão. Acaba qualquer chance de que não aconteçam casos como ada escritora do livro Desonrada, Mukhtar Mai, que foi condenada a serestuprada publicamente porque seu irmão de 12 anos teria olhado para umamulher de casta "superior". O suplicio de Mukhtar, com estupro público emúltiplo, só não foi mais intenso que sua força de superação. A históriadessa paquistanesa choca e emociona, mas a notícia de que a Sharia, quetinha começado a ser suprimida no Paquistão, volta a ser usada em todo opaís é um choque. Penso em Mukhtar naquela pequena aldeia onde ela decidiumorar e resistir com uma escola para meninas e meninos. Normalmente eu gosto de escrever nos dias oito de março, de quantoavançamos, mostrando estatísticas de conquistas, e de quanto falta avançar, mostrando as diferenças salariais, o pequeno percentual de mulheres no poderem qualquer país, as discriminações, mas aí... veio a menina de Recife. Ela simplesmente me enfraquece. Que números de avanços levantar paracompensar essa violência? Eu penso nela diariamente desde o dia da notícia. Não pela polêmica daIgreja Católica, porque a Igreja não me espanta. Que ela excomungue omédico, as enfermeiras, a mãe pela decisão de interrupção da gravidez e quenada diga sobre o estuprador, não me surpreende. É apenas bizarro! Medieval.Eu penso na menina de Recife e nos debates que tenho participado nos últimosanos, sempre em março. Nesses debates sempre discordo das mulheres bemsucedidas que dizem que a luta está ganha, que o feminismo é um movimentoultrapassado, ou outros equívocos assim. Eu, feminista, confesso, minha lutae meu espanto diante da incapacidade de ver o óbvio: que cinco mil anos deopressão não se acabam em poucas décadas, que há muito a fazer, a construir,a vigiar, para que haja algum dia respeito igual. Falta tanto para o dia emque poderemos dizer que o feministro está superado!Mas hoje, na verdade, eu penso apenas no futuro dela: a menina curará suasferidas? Conseguirá entender e processar a violência de que foi vítima? Vaiestudar, ter carreira, filhos? Vai conseguir amar um dia? Escapará das teiasda reprodução da pobreza? Vai simplesmente reaprender a brincar, como devefazer uma menina de nove anos?.Eu podia dizer que ela desperta em mim uma fúria feminista. E é verdade, masé uma verdade incompleta. Ela desperta em mim o o sonho de protegê-la dealgum modo. De embalá-la docemente e contar uma história cheia de aventurase graça. De cantar para ela uma cantiga de roda, de brincar de pique escondeem volta da casa. De ir com ela ao cinema e comer pipoca sentada no degraude uma escadaria. Que tal um sorvete para resfrescar o calorão?Não sei o que é. Mas por alguma razão eu penso insistemente na menina deRecife neste dia da mulher. Penso com o coração. Eu apenas sonho que suasferidas se cicatrizem um dia. O discurso feminista, com estatísticas e fatos eloquentes, eu o farei outrodia. Hoje eu apenas quero sonhar que a menina de Recife um dia, apesar de tudo, após tanta violência, será feliz.


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segunda-feira, 2 de março de 2009

Nossas escolhas

Interessante a palestra do Professor Clóvis Barros Filho no último encontro ABERJE, que ocorreu durante um almoço na FIRJAN, no dia 19 de fevereiro, para mais de 120 profissionais de Comunicação Corporativa. O Professor nos falou sobre a Comunicação Organizacional e a Ética nas Organizações. Seu estilo rápido, contundente obrigou a todos ali presentes a ficarem num silêncio cheio de reflexões, quando nos levou a conclusão que a ética não é uma algo distante e que está em ação em cada uma das decisões, escolhas que fazemos no dia-a-dia de nossas vidas. “O gato no mundo todo e em qualquer tempo apenas gateia, o sapo sapeia. Nasce com seu jeito de ser gato ou sapo e assim vive fazendo o que qualquer gato ou sapo faz pelo planeta afora”. E nós? Somos completamente diferentes. Fazemos escolhas de todo o tipo e nelas estão contidas nossa visão, nosso compromisso. Fazemos nossas escolhas nas empresas, no nosso tipo de trabalho, no que estudamos, como educamos nossos filhos etc. Assumimos compromissos com nossa vida, a de nossas famílias, fazemos contratos escritos e contratos verbais, nas nossas relações afetivas por exemplo. Pensamos, sentimos, desejamos e tudo toma forma nas nossas ações. Como comunicadores, nós escolhemos as notícias que destacaremos nos nossos veículos internos ou o que pretendemos que seja divulgado. As ações das empresas frente a seus empregados, comunidades, sociedade em geral estão todo o tempo deixando transparecer suas reais escolhas e o impacto de suas ações. Aí está guardado o desafio da Reputação de Marcas. A escolha entre ser bom maquiador ou efetivamente escolher o caminho da transparência e da transformação. A nossa civilização parece estar num importante momento de escolha. Talvez por isso a reflexão sobre ética tem ganho tanto espaço recentemente. O encontro foi uma oportunidade de receber muitos inputs para reflexões sobre a ética nas nossas vidas e nos espaços organizacionais na sociedade em geral. Estamos definindo não só as nossas escolhas na comunicação que produzimos, mas influenciando a escolha de outras milhares de pessoas. Quem quiser se aprofundar no assunto, leia mais sobre ética no site www.espaçoetica.com.br. Lá você poderá conhecer melhor vários estudiosos, ler e ouvir o Professor Clóvis de Barros Filho.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Nossa insensibilidade

O noticiário do jornal ia correndo normalmente. Passava pelas notícias da crise, as vergonhosas situações do Congresso Brasileiro e, de repente, o locutor falou sobre o Quênia. Depois de várias descrições da situação no país eu ouvi:
“...No Quênia hoje temos 3 milhões de pessoas passando fome”. E continuou: “O Flamengo hoje...” Por um instante minha mente registrou o absurdo da nossa civilização. Estamos conformados com uma forma de viver e pensar que certamente não nos leva a conseguir as transformações necessárias. Notícias repetidas, em tom monocórdico, viram paisagem e não penetram na nossa consciência. É assim com a fome, a violência, o aquecimento global e tudo aquilo que possa nos tirar do pseudoconforto. Às vezes a realidade, que fingimos não ver ou escutar, bate na nossa cara. E aí, só aí, muitos começam a se dar conta de novas tarefas a realizar

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

R&A 10 anos

Quando começamos nunca imaginaríamos como seriam os nossos primeiros dez anos! Neste período, tudo aconteceu no mundo para que percebêssemos que a hora era para transformar. Essa certeza começou em 1988, quando saindo de uma agência multinacional, na qual eu era diretora de planejamento, percebi que eu deveria construir uma estrutura de comunicação própria, experimentar e seguir minha intuição dos desafios que começava a enxergar.

A Oficina fez 20 anos em dezembro de 2008. Hoje olhamos para trás e vemos as inúmeras dificuldades que eu, Antonio Jorge - que foi meu sócio por 12 anos e continua parceiro da R&A até hoje - e todos que passaram pela empresa enfrentaram. A crise virou uma constante em nossas vidas. Crises do Rio de Janeiro, como a ida de nossos clientes para São Paulo, crise da Rússia, crise disso e daquilo e essa equipe guerreira não parou, nunca deixou qualquer coisa abalar sua convicção de que precisava superar cada desafio porque tínhamos uma missão a cumprir no mundo da comunicação. Crescemos com parceiros, associados e clientes que acreditaram no nosso trabalho.

Brigamos muito com aqueles que insistiam, e ainda insistem, em manter modelos obsoletos, em não perceber o papel estratégico da comunicação integral, com visão sistêmica para a sociedade. Brigamos com os que não compreendem a responsabilidade de quem trabalha com comunicação, sejam jornalistas ou publicitários.

Às vezes nos sentimos sozinhos, pequenos, fracos. De repente surgia um novo guia que nos instruía, nos capacitava para enfrentar mais uma dificuldade e o profundo desânimo que às vezes nos contaminava. Mas seguimos. Sempre com um profundo compromisso ético e com valores fortes que atraíram para nós os melhores profissionais e os melhores clientes. Não só empresas, mas os Dons Quixotes que delas fazem parte. Aqueles que não têm medo de refletir sobre o que fazem dentro das empresas, onde é tão difícil mudar culturas, ir adiante. Procurar brechas e fazer acontecer um evento que fosse, que transformava mentes. Temos muito a agradecer a mestres queridos, que nem sabem como nos ajudaram como Marilyn Ferguson, Frijot Capra, Leonardo Boff, Ken Wilber, Willis Harman, David Bohn, David Cooperrider, Judy Rodgers, do IVE, Humberto Maturana, Peter Senge, entre milhares de outros que nos incentivaram a aprender a estudar, prática tão distante dos publicitários, e a criar nossas metodologias hoje reconhecidas por tantas empresas.

Temos que agradecer às ONGs, que conhecemos fazendo a programação visual da ECO 92, que nos surpreenderam desenvolvendo trabalhos por causas e nos fizeram voluntários de tantas delas e pelo aprendizado de como é profunda a mudança que temos que operar. Talvez o maior agradecimento seja ao Betinho com quem aprendi o significado do amor à humanidade, que me ensinou que não é piegas ser solidário, olhar sempre com doçura para toda e qualquer pessoa e que a fome, que afeta milhões de pessoas no mundo, é a prova de nossa absoluta aceitação da exclusão.

Temos que agradecer aos parceiros, são tantos que é impossível nominá-los, mas tenho um especial carinho por criativos que descobriram que abrir mão de uma boa piada ou trocadilho vale a pena para sermos responsáveis na comunicação. PUC e FGV permitiram nascer a palestrante, quando dei aula de publicidade e descobri que através da matéria podia dar aula de vida e de escolhas.

A R&A caminhará para seus próximos anos e, hoje, com a certeza de que sua força permanecerá como causa mesmo com novas lideranças. Você que está lendo esse Boomerang especial, receba nosso carinho e o nosso muito obrigada. Se você faz parte do nosso mailing, é porque você deu uma contribuição para nossa história. Seguiremos conscientes de que temos muito trabalho pela frente. Rápidas transformações precisam se operar como diz o slogan do Green Peace no Fórum Social Mundial de onde acabei de voltar: “É agora ou agora”.

Nádia Rebouças

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Curiosidade


Fórum Social Mundial. O que significa? Barack Obama listou os valores de seu governo tentando compartilhar significados com os americanos. Entre eles falou em curiosidade. Isso me chamou muito a atenção. Claro, nada melhor do que despertar a curiosidade de uma nação que se habituou a olhar para o próprio umbigo. Não conhece o mapa mundi e não tem idéia de outros povos com os quais compartilha o mesmo planeta.

A experiência de viver um Fórum Social Mundial é inesquecível. Foi um grande impacto para mim em Porto Alegre quando pude participar pela primeira vez. Não poderia deixar de participar neste ano que a Amazônia é o cenário para o encontro de mais de 100.000 pessoas de todo o mundo. Mas um Fórum não é só essa diversidade visual de cores, raças, gênero, idades, idiomas como você vê na grande mídia. Ela insiste em deixar a imagem de um evento exótico.

O que acontece aqui é muito mais. São as diferentes causas, as diferentes teses, os diferentes argumentos, os diferentes sofrimentos que se misturam com respeito. É a presença de parte da cidadania ativa do mundo que trabalha para melhorá-lo. Que clama por justiça e humanidade. São intelectuais, profissionais de ONGs, religiosos, estudantes, índios, quilombolas, comunidades que de uma forma ou outra estão organizados, formando redes, atuando por causas que lhes desperta a vontade dos voluntários.

Caso você realmente tenha curiosidade para saber o que aconteceu, a internet é a solução. A grande mídia, um pouco mais complacente este ano, vai te mostrar cenas folclóricas, pinceladas. Não há porque dar voz a participantes do mesmo planeta que desde o primeiro Fórum anunciavam o desastre de um modelo econômico que não leva em consideração a vida na Terra.

O desejo pela acumulação de poucos que passa por cima do meio ambiente e das populações menos favorecidas que sempre foi a maioria dos habitantes deste planeta. Neste século alguns governos começaram a ensaiar passos de mudança, empresas inventaram a responsabilidade social e muitos empregados começaram uma luta dentro das corporações para humanizar suas atuações, seja para os empregados, seja para as comunidades que normalmente enxergam como pertencendo ao “entorno”, isto é, elas são o “centro”.

Tudo isso foi pouco, muito pouco para a transformação que precisa se operar. Não se trata mais de pequenas mudanças ou ajustes. A exigência desse momento da humanidade é por uma mudança de nível de consciência, somos convocados a reinventar a sociedade: como vivemos, como compramos, como e o que produzimos, como distribuímos as riquezas, mais ainda o que é riqueza nesse novo mundo. Ninguém tem a resposta e por isso o Fórum Social se torna um movimento que põe o mundo em movimento.

Atrás dessas pessoas que estiveram lá, andando quilômetros pelas universidades de Belém, que assistem com espanto as chuvas com hora quase certa, se encantam com os peixes e as frutas, estão milhares de outras que receberão a influência desses agentes de transformação. As teses serão divulgadas, as redes se intensificarão e mais e mais mudanças serão estimuladas. Não há muito tempo, precisamos mudar tudo. Claro que começa pela nossa forma de pensar.

Informe-se vá para a internet, pesquise o que foi debatido no Fórum, deixe que as mangas de Belém caiam também nas suas cabeças para que um novo ciclo possa começar no mundo e possamos ainda salvar algo. Curiosidade. Lembra? Por que tantas pessoas se reúnem para pensar nos inúmeros temas? (veja programação no site http://www.forumsocialmundial.org.br/

Cada um de nós só tem uma escolha hoje: viver de ouvidos e olhos vendados ou ouvir e sair falando para transformar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O amanhã começou hoje

Esse dia será lembrado. O dia que se escutou falar de paz, de espiritualidade, de aceitação real da diversidade, sem rancor. Ouvimos falar em cidadania. Assistimos ontem um presidente de mangas arregaçadas pintando uma parede e convidando a população para o voluntariado. No meio do frio de Washington hoje derramou-se o calor de um novo tempo. O futuro bateu na porta do nosso planeta. Pode ser menos do que minha velha esperança deseja, mas certamente hoje o mundo não é mais o mesmo. Já importamos muito hamburgueres dos EUA. Mudou o chique, podemos sonhar que novos valores e significados cheguem para a civilização mundial. Barack Obama falou em propósito. A serenidade, a temperança misturada com coragem, paciência e sabedoria. Novo coquetel para a humanidade. Vamos lá, continue nossa luta pela transformação. Há os que são capazes de sentir as dores do mundo. Não será fácil. Pode apenas descambar na defesa do próprio território, mas falou-se no e para o grande território, todo o planeta. A essência da comunicação surpreendeu pela seriedade, foco sem arrogância ou demagogia. Isso é novo.
dia 20/01/2009